Wednesday, March 7

NW 3: Ophir - Cromwell; 66,9kms

Marco 6

Os meus vizinhos, aqueles sem graca, tinham mesmo pouca piada: hoje levantaram-se as 06:00 e nao tiveram a delicadeza de evitar barulho. Apos uma hora de esforco heroico, desisti e decidi-me a arrancar mesmo cedo. As 08:15 estava na estrada mas o vento tambem. Deve ter percebido a minha tentativa de ontem.

Ao principio ate calhou bem, porque os primeiros 25kms eram a favor e foi um ve-se-te-avias. Gracas as condicoes, vi pela primeira vez os "corredores" de nuvens lenticulares que sinalizam a presenca de uma onda de vento dinamica (em ingles, standing wave). Causada pela barreira perpendicular ao vento, tinha uma extensao e regularidade impressionantes.

As 10:15 estava em Alexandra abancado diante um monte de panquecas daquelas grossas, com nata, maple syrup e banana. Ha qualquer coisa de delicioso neste sentimento do dever cumprido: com 25kms ja feitos antes das dez e meia, mereco total e inequivocamente, empanturrar-me antes de tomar o cafe. E depois, o porridge da manha ja tinha sido gasto na estrada, e eu sabia que ia precisar de combustivel.


De Alexandra para cima era preciso subir ate a barragem em Clyde e dai seguir a borda do lago de Dunstan numa garganta estreita ate Cromwell. O dono da loja de aluguer de bicicletas de Alexandra com quem me fui informar, sugeriu-me que fosse ver mas que nao valia a pena insistir, que depois da barragem o vale acelerava o vento e nao dava. Combinamos que se o vento me devolvesse iriamos jantar caldeirada ao restaurante do amigo portugues dele.

Foi de facto forte, o pior dos meus dias de northwesterly ate agora. Ate Clyde estava passavel, mas depois subia-se o "degrau" da barragem para o novo nivel da agua e era como que um encontrao. Trata-se de um grande degrau, porque e a maior barragem hidroelectrica do pais, mas mesmo assim... Aquilo vinha sobretudo de frente mas de vez em quando parecia que fazia ricochete, e pimba uma estalada de lado. Houve varios momentos em que tive de por os dois pes no chao para aguentar a bicicleta, e alturas em que fiquei pregado ao chao, a bicicleta estacava com a rajada, e ou punha um pe ou era so um soluco e continuava. Mais uma vez o monociclo provou ser boa preparacao.


Curiosamente, nao me chateei, nem fiquei particularmente preocupado. Tinha muito tempo, e sobretudo sabia de antemao que o vento estava a espera, tinha planeado o dia a volta disso. Era so uma questao de deixar passar o tempo e havia de chegar. Senao, havia pontos intermedios onde parar e esperar.

Cromwell lembrou-me um filme de terror daqueles em que o jovem casal recem instalados no novo suburbio, pouco a pouco se apercebe que boa parte dos vizinhos sao extraterrestres que comem humanos, vivos e devagarinho. E um suburbio, de filme como disse, sem cidade, sem centro, a beira da ponta do lago. Centenas de casas independentes, muitas muito pirosas, em ruas perpendiculares, com relva e caminhos manicurados. Ha uma escola, e um ginasio, e quase nao encontrei lojas. Muito estranho.

Mas tinha hoteis e moteis, porque e uma zona de pesca desportiva de renome. Todos carissimos, emfim para aquilo que eram, pelo que dormi acampado no mocamp. A previsao era de chuva, mas nunca mais chegava. Passei o serao a tentar encontrar onde dormir para duas variantes de plano diferentes. Estou numa zona muito turistica que nao se compadece com o meu planeamento a ultima da hora.

Finalmente, la para a uma da manha a chuva acordou-me. Fiquei a ouvir uns momentos e a pensar como realmente podemos simplificar, temporariamente, a nossa existencia. Aqui estava eu deitado no chao, num sitio verdadeiramente longe do meu territorio natural, sentindo-me confortavel e seguro, havendo tudo o necessario debaixo daquele minusculo abrigo de pano. Cabe tudo em dois sacos e, com a bicicleta, posso ir onde bem me der na cabeca sem complicacoes de maior.

Basta aceitar outras limitacoes, que nao sao la muito limitativas face ao que se ganha: algum desconforto (que passa porque nos habituamos rapidamente a viver mais expostos ao tempo); tudo demora mais, nao e so o andamento na estrada, uma proporcao muito maior do nosso tempo e dedicado a tratar das necessidades basicas como encontrar alimento, abrigo, tratar do equipamento, escrever um pouco.

Nao sei quanto tempo aguentaria assim. Suspeito que a duracao desta viagem esta proxima do meu limite actual; faz-me falta-me a minha familia, os amigos, a minha sociedade. De vez em quando ate preciso de qualquer coisa mais complexa para ocupar a testa. Mas nao ha duvida que umas semanas em paisagens grandes, lava a cabeca e enche-me de ar fresco. E estou convencido que se pode acumular o mesmo efeito em pequenas doses homeopaticas compativeis com ganhar a vida. E escolher o que fazemos com o tempo de lazer que desperdicamos :)

No comments: