Tuesday, February 27

Oamaru; 0 kms

Fevereiro 27

Um bom dia para fazer aquilo que faco melhor: nada. Com quase 220 kms nas pernas nos ultimos 3 dias decidi descansar mais um bocadinho a ver se passa a chuva. Montei um cavalete na bicicleta, para nao estar sempre a rocar os alforges encostando-os a tudo, e andei por ai a viver a vila.

Cada vez me habituo mais a minha condicao deambulante. Monto a minha sala ou ecritorio onde for bom, e der jeito. Escrevo num cafe, leio numa sala de informacao, faco contas na cozinha e planeio a rota num jardim. Como em todo o lado e a toda a hora.

Oico e sinto a vida a fluir a minha volta como um zumbido de fundo. Maes a discutirem os detalhes dos campeonatos em que jogam os rebentos; turistas a trocar dicas; pequenos comerciantes a falar dos seus negocios; discussoes sobre rugby; muita conversa de obras, precos e hipotecas de casas. Nao ha duvida que cada vez mais existem universalidades partilhadas, para alem das biologicas.

Nao estava a espera, tratando-se de um pais com cultura tao anglicizada, mas ha cafes por todo o lado na NZ o que ajuda bastante. Imensos sao modernos, bonitos, bem decorados e, maravilha das surpresas, a maioria tem bom cafe! So e pena o preco, mas... Ficariam lindamente em Lisboa, tal como os novos cafes que comecam a surgir no Chiado.

O "Steam", cafe onde estive a escrever, acaba de ser vendido. Os antigos donos vao para a Australia, e estao a passar a pasta a nova proprietaria, apresentando clientes regulares e dando-lhe dicas sobre como aumentar a receita em cada pedido. Dizem-me que o boom dos cafes na NZ data dos ultimos 10 anos. Os kiwis parecem ter uma relacao com a Australia parecida com a nossa com Espanha, mas com menos sofrimento de inferioridade, pelo menos que se veja a olho nu.

Mantenho a impressao inicial de que os turistas sao predominantemente mais "velhos", ou entao sou eu que ja nao ando pelos mesmos sitios :) Mas a verdade e que, mesmo nos terrenos mais basicos onde se pode acampar ou parar o campervan por trocos, ha muita gente "prateada". O custo da passagem ate ca sera parte da resposta mas nao sei se a unica. Pending further investigation, uma coisa e certa: ou o pessoal fica com aspecto envelhecido mais cedo, ou isto esta cheio de velhos muito activos e energicos.

Diverti-me tambem a falar com o dono de uma padaria/boulangerie na parte recuperada da vila. Namorado da gerente do backpacker onde estou instalado, esta a preparar-se para acrescentar cafe ao seu negocio numa tentaiva de puxar mais trafego. Eu acho que ele tem uma boa localizacao para daqui a cinco anos quando a zona onde esta a loja estiver pronta mas ate la nao se safa... Previsivelmente, atributos que eu vejo como uteis no sistema hoteleiro barato, ele ve como entraves a captacao de receitas adicionais do turismo:) Explica-me tambem as tensoes entre as varias faccoes envolvidas (camara, retalho, grupo de conservadores) e as pequenas corrupcoes locais. Parece que aqui os contratos de restauro da camara tambem vao para os irmaos do presidente, e que as negociatas de terrenos que passam a ser "construiveis" requerem pelo menos um accionista vereador. E como digo, ele ha muitas coisas universais.

E e um mundo pequeno. Conversei tambem com um cacador de veados reformado. Nao se parece nada com o do filme da nossa juventude. Muito pequeno, bigode grisalho, pouco cabelo, bracos que pareciam as minhas pernas. Agora tem uma loja de continhas e colares, gerida pela mulher, e esta a lancar-se na representacao de uns hamacs americanos todo tempo para bivouac bastante conhecidos por quem segue essas coisas. Descreveu-me a caca com helicopteros que os kiwis usam bastante, e falou-me das diferencas de valor da carne de veado selvagem. Contou-me tambem que ha uns anos quando trabalhava como guia em Te Anau, no sul profundo, conheceu um senhor portugues. Conversa puxa cerveja e chegamos a conclusao inequivoca que se trata de Patrick Monteiro de Barros de passagem no seu fantastico veleiro.

A chuva parou, mas esta uma ventania de SE de fazer tremer as janelas. O que e uma pena porque e para la que vou. Os 130kms ate Dunedin, a capital de Otago, vao ser desportivos, para nao dizer que se arriscam mesmo a ser sofridos. A minha ideia era demorar dois dias ao longo da costa, mas nao estou nada seguro que acabe assim.

Depois mais um dia de descanso :) para visitar Dunedin. Entre outros atractivos a fabrica da Speight, a melhor cerveja que por ca provei ate agora. A seguir comecam as coisas serias a caminho de Queenstown e Wanaka, que sao estao as portas da passagem para a costa oeste que e considerada a zona selvagem.

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